A glória maior: o título da Segunda Divisão de 1968

O Vasco da Gama não tinha conseguido o acesso na Terceira Divisão (a 4ª estadual) Paulista de 1967. Apesar da boa campanha, ficando com o vice-campeonato de sua série – o campeão foi o Palmeirinha, de Porto Ferreira -, o cruzmaltino não tinha conquistado o direito de acesso.

Entretanto, havia uma polêmica em questão: em 10 de setembro de 1967, o Vasco derrotou a Internacional de Santa Bárbara por 3 a 2, fora de casa, mas o jogo se encerrou aos 30 minutos do segundo tempo porque o Dragão ficou com seis jogadores em campo – abaixo do permitido para uma equipe de futebol. Isso tirou os pontos do Vasco na tabela e acabou definindo o título ao Palmeirinha. Contudo, o árbitro Geraldo Antonio Mágne se enganou, pois o Dragão ainda tinha sete atletas na cancha – o ponta Melado chegou a sair machucado, mas retornou. O jogo foi para a justiça e acabou não tendo uma definição.

Foi pensando nisso que a Federação Paulista de Futebol, que já tinha a intenção de aumentar o número de participantes da Segunda Divisão de 1968, convidou o Vasco da Gama a subir de divisão. Além do Dragão, as seguintes agremiações também foram convidadas: Amparo, Botafogo de Catanduva, Novo Horizonte, Penapolense, Municipal de Paraguaçu Paulista e Santo André.

O Campeonato Paulista da Segunda Divisão da época é, na prática, a Série A-3, terceira divisão estadual, de hoje. Ela se iniciou em 1954, quando o movimento de profissionalização de times se tornou mais intenso, o que causou uma “superlotação” na segunda divisão. Até a edição de 1968, tinham sido campeões o Atlético Ituano (duas vezes), o Tanabi, o Expresso de São Carlos, o Nevense, o Irmãos Romano de São Bernardo do Campo, a Prudentina, o Estrada de Ferro Sorocabana, a Santacruzense, o Rio Preto, o Taquaritinga, o São José e o União Barbarense. Também, em 1966, um título chegou a ser divido entre a Internacional de Limeira e a Ituveravense.

 

MONTAGEM DO ELENCO

Quando o Vasco da Gama recebeu, em junho de 1968, o ofício da Federação Paulista de Futebol que confirmava a ascensão do Dragão à Segunda Divisão, a diretoria capitaneada pelo gerente de futebol David Tunussi, mas também com a participação dos presidentes (de início) Amasílio Scoriza e (boa parte da campanha) Antônio Zutin começou a se movimentar para reforçar o elenco do cruzmaltino. Do time de 1967, ficaram o lateral Irineu, os zagueiros Valdecir e Arlindo, o volante Miltinho, o meia Nene Mobilon e o ponta Pelezinho.

Em fevereiro de 1968, ou seja, antes do cruzmaltino receber o convite da Federação, já tinham assinado com o clube: o goleiro Nenê, vindo do Barra Bonita +; o zagueiro Romualdo, do Flamengo de Americana; o lateral Helio, que jogava no Brasil de Tatu (time amador de Limeira); além de Bauer e Martins, ambos vindos do futebol campineiro.

Depois do convite, a primeira mudança no Vasco da Gama foi o do cargo técnico: saiu Antônio Rosalém, depois de uma passagem de 41 jogos pelo cruzmaltino, e chegou o desconhecido Gamba, que por muito tempo chegou a trabalhar no Jabaquara de Santos e tinha ligação com o futebol amador de Campinas +. Junto com ele, outros atletas começaram a chegar ao Vasquinho: o meia Tuti, ex-União Barbarense; os centroavantes Demerval, ex-Internacional de Santa Bárbara, e Zélio, vindo do futebol são-carlense; o lateral Zulu, que estava no amador de Campinas; o ponta Claudio Becatti, vindo do futebol jundiaiense; e o goleiro Zé Aparecido, que era do São Jorge (equipe amadora de Americana) e que foi aprovado em um teste do técnico Gamba com vários atletas da cidade. Posteriormente, foram pinçados do amador do Vasco: o meia e lateral Pim; e os atacantes Zé Rodrigues e Fred Smania – este último, entretanto, foi utilizado como goleiro no elenco principal.

Como preparação para a Segunda Divisão, o Dragão fez oito jogos: três pela Taça Amadeu Elias – tradicional torneio americanense disputado entre Vasco da Gama e Flamengo – e que terminou com o título do rubro-negro; três pela Taça Irmãos Guion – concorrido apenas em 1968 pelos amadores de Vasco e Flamengo – e que teve o Dragão como campeão + ; além de mais dois amistosos oficiais contra o ABC de Rio Claro – duas derrotas, uma em Americana por 2 a 0 e outra em Rio Claro por 2 a 1.

 

A 1ª FASE

Com 31 participantes, o Campeonato Paulista da Segunda Divisão de 1968 foi dividido em quatro grupos regionalizados. O Vasquinho estava no “Grupo 2” ao lado de Amparo, Amália de Santa Rosa de Viterbo, Araras CD, Bauru AC, Novo Horizonte, Pirassununguense e Rio Branco de Ibitinga. Os líderes de cada chave se classificariam para o quadrangular final – no qual apenas o campeão subiria de divisão.

O Vasco da Gama começou o certame com dois jogos consecutivos em sua casa, no Victório Scuro e isso foi o gatilho para o cruzmaltino disparar com dois triunfos: um sobre o Bauru Atlético Clube, na estreia em 7 de julho, por 3 a 0; e o outro sobre o Amparo, por 4 a 1.

Entretanto, se o Vasco era um verdadeiro “Dragão” em sua casa, fora de casa não conseguia emplacar os mesmos resultados. Por isso, até a oitava rodada o time foi derrapando no grupo, quando na derrota por 1 a 0 para o lanterna Bauru, na cidade “Sem Limites”, custou o cargo do técnico Gamba +. Quem assumiu, interinamente, foi o diretor David Tunussi – que contava muito com o auxílio de José Rodrigues, o Zé Pulga.

Apesar das vitórias espetaculares sobre o Rio Branco de Ibitinga por 6 a 0 e sobre o Novo Horizonte por 4 a 0, ambos em casa, o rendimento do Vasco longe de seus domínios acabou não mudando. Sob o comando de David, o cruzmaltino conquistou um só ponto fora: contra o Pirassununguense, após empate por 2 a 2.

Isso fez com que a diretoria encerrasse a participação interina de David Tunussi no comando técnico e anunciasse Lucídio Camargo – que já tinha bons trabalhos em times amadores de Americana, como no antigo Canto do Rio – para tentar o milagre. Não foi possível. Em sua estreia, derrota por 2 a 1 para o Araras, fora de casa; e mesmo com o triunfo por 6 a 0 sobre o Amália na última rodada, o Dragão acabou ficando com a 2ª colocação do grupo, se despedindo do torneio.

 

A CAMPANHA DO VASCO

 

A classificação final:

 

O SANTO ANDRÉ VIRA A MESA, O VASCO VAI DE CARONA

O Santo André (na época, Futebol Clube) estava no Grupo 1, ao lado de ABC de Rio Claro, DERAC de Itapetininga, Estrela de Piquete, Minister de São Paulo, Portofelicense e Velo Clube de Rio Claro. Até a última rodada, o Ramalhão liderava o grupo, como previsto para um time que tinha realizado um grande investimento para disputar a competição – lembrando que o Santo André FC era fruto de uma união de vários segmentos da cidade que estavam descontentes com o Corinthians andreense.

Entretanto, na última rodada, uma zebra aconteceu: a Portofelicense derrotou o Santo André por 2 a 0 e o Velo Clube venceu o dérbi rio-clarense sobre o ABC (o Rio Claro FC) por 2 a 1, fora de casa. Deu Galo rubro-verde como campeão do Grupo 1 e o Ramalhão estava eliminado. Porém, segundo os relatos da época, o time do ABC tinha grande prestígio na Federação Paulista de Futebol e com isso, supostamente, ele teria tentado a “virada de mesa”. A seguir, os fatos serão contados na ordem cronológica:

Em 13 de novembro de 1969, a Federação Paulista de Futebol noticiou a inclusão dos vice-campeões de cada série também na fase final que decidiria o acesso. Ficando, assim, 8 clubes em grupo único, sendo o primeiro colocado campeão e ascendente à “Primeirona”. Três dos quatro clubes líderes de cada chave (Velo Clube, Rio Branco de Ibitinga e Garça) não concordaram com a mudança. As agremiações citadas alegavam favorecimento ao Santo André Futebol Clube com a alteração do regulamento + .

Em 18 de novembro, os presidentes do Velo Clube e do Rio Branco de Ibitinga entraram com uma representação na Federação Paulista de Futebol solicitando o prosseguimento do campeonato com o regulamento inicial.

Em 19 de novembro, o presidente do Vasco, Amasílio Scoriza Lopes, e os presidentes de Santo André e Oeste foram consultados sobre as condições dos clubes para uma possível disputa na fase final. Todos se mostraram aptos para continuar no torneio.

Em 26 de novembro, em uma reunião na sede da FPF com a presença das agremiações: Velo Clube, Rio Branco de Ibitinga, Fernandópolis, Garça, Santo André, Vasco de Americana, Oeste de Itápolis, Municipal de Paraguaçu Paulista, DERAC, Jalensense e Guarani de Adamantina (os três primeiros de cada grupo, exceto o Araras CD que não pôde comparecer), a entidade maior do futebol paulista comunicou que a fase final teria a presença dos quatro primeiros de cada grupo e seria dividida em duas séries em que os campeões de cada fariam a final do torneio em um prélio com mando neutro +.

Em 29 de novembro, o Velo Clube comunicou à Federação Paulista de Futebol a sua desistência do certame da Segunda Divisão de Profissionais. A retirada foi como represália pela decisão da entidade.

Em 03 de dezembro, o ABC de Rio Claro comunicou à Federação Paulista de Futebol a sua desistência do certame. Os dirigentes do Rio Claro foram solidários ao Velo Clube e alegaram, também, terem dispensado seus atletas e que uma recontratação causaria gastos “enormes”.

Em 04 de dezembro, ou seja, quatro dias antes do começo da fase final, o Araras CD também comunicou desistência. O “Acedê” alegou ter dispensado seus jogadores e que não teriam aporte financeiro para recontratá-los, além disso disseram prestar solidariedade ao Velo Clube.

 

Uma das raríssimas fotos coloridas do Vasco na década de 60. A formação do time para o jogo contra o Amália - vitória por 6 a 0, no dia 6 de outubro de 1968. 

Em pé: Lucídio Camargo (técnico), desconhecido, Nenê, Valdecir, Arlindo, Miltinho, Zulu e Helio
Agachados: Claudio Becatti, Demerval, Zélio, Tuti e Martins
Agora a foto do time titular antes da vitória por 4 a 0 sobre o Novo Horizonte, em 22 de setembro de 1968.

Em pé: Helio, Zulu, Miltinho, Arlindo, Nenê e Valdecir
Agachados: Bauer, Demerval, Claudio Becatti, Tuti e Martins

 

 

A 2ª FASE – SÉRIE “BRIGADEIRO FARIA

LIMA”

Com todas as suas idas e vindas, a segunda fase teve início em 8 de dezembro de 1968 com a participação de 13 clubes, divididos em duas séries regionalizadas. O Vasco estava na Série “Brigadeiro Faria Lima”, junto com Amália de Santa Rosa de Viterbo, DERAC de Itapetininga, Fernandópolis, Oeste de Itápolis e Santo André – Velo Clube e ABC de Rio Claro foram os desistentes desta chave. A outra série, a “Abreu Sodré”, tinha os seguintes componentes: Botafogo de Catanduva, Garça FC, Guarani de Adamantina, Jalesense, Municipal de Paraguaçu Paulista, Rio Branco de Ibitinga e São Bento de Marília – o Araras CD foi o único a desistir desta chave.

A equipe cruzmaltina estava desentrosada, até porque só tinha feito um amistoso desde o término da primeira fase: derrota por 3 a 2, no dia 3 de novembro, para o Velo Clube, em Rio Claro +. Até por isso, a “perna pesou” em Santa Rosa de Viterbo e o Vasco da Gama acabou derrotado por 3 a 1 para o Amália.

Entretanto, o que era preocupação pelo desentrosamento, virou alívio e arrancada. Depois da derrota na estreia, o Dragão emplacou três vitórias seguidas: duas em casa, 2 a 1 sobre o Fernandópolis e 4 a 0 sobre o Oeste de Itápolis, sendo que este último já acontecendo em janeiro de 1969, pós-parada para as festividades – o que colaborou, também, para que o técnico Lucídio Camargo pudesse trabalhar o time; e, enfim, a tão sonhada vitória fora de casa, 3 a 2 sobre o DERAC, em Itapetininga.

Até o fim da tabela prevista na Série “Brigadeiro Faria Lima”, o Vasco da Gama conseguiu mais quatro triunfos em seis jogos, o que o colocou na liderança da chave com 14 pontos, mas empatado com o Oeste de Itápolis. Com isso, a Federação Paulista de Futebol marcou para o dia 12 de abril de 1969 um jogo de desempate, em campo neutro (estádio Dr. Adhemar de Barros, em Araraquara), para decidir o campeão da série e o adversário do Municipal de Paraguaçu Paulista, campeão da “Abreu Sodré”, na grande final da divisão.

O Vasco da Gama tinha a vantagem do empate prolongado contra o Oeste, ou seja, se após o término dos 90 minutos regulamentares + os 30 minutos de prorrogação a partida terminasse empatada, o Dragão seria decretado o campeão por ter três motivos: 1 – ter a melhor campanha durante toda a competição (31 pontos a 28); 2 – ter vantagem no confronto direto (4 a 0 para o Vasco em Americana, 3 a 1 para o Oeste em Itápolis – com isso, 5 a 3 para o Dragão no agregado); e 3 – ter marcado mais gols na série, apesar do empate em saldo de gols (19 a 18 em gols, com ambos tendo 5 tentos de saldo positivo).

 

A CAMPANHA DO VASCO

 

A classificação final:

 

A PRIMEIRA DECISÃO, EM ARARAQUARA

No dia 2 de abril de 1969, a Federação Paulista de Futebol anunciou a decisão de desempate para o dia 12, no estádio Dr. Adhemar de Barros, em Araraquara. Era o início de um pré-jogo bastante movimentado e cheio de expectativas por parte da imprensa e dos torcedores vascaínos. Durante toda a semana, o jornal O Liberal, principal periódico americanense na época, publicava matérias com frases como “Força, Dragão!” +, “Pra frente Vasco” +  e “Nós estamos com o Vasco”.

Além disso, uma grande caravana estava sendo organizada +, com a ajuda de diretores do cruzmaltino, de jornalistas e de políticos da cidade.

“Mas, a nosso ver, todos precisam trabalhar. É Americana que está lutando por um lugar na primeira divisão de profissionais e tem tudo, agora, para conseguí-lo. Vamos todos, portanto, dar uma parcela de cooperação ao clube da cruz de malta (…) aqueles que possuem condução própria ofereçam uma carona ao seu amigo, ao seu vizinho. Vamos levar toda Americana esportiva a Araraquara.” – O Liberal, 8 de abril de 1969.

Com a presença de cerca de 500 torcedores do Vasco, sendo que todos saíram juntos da Igreja Matriz de Santo Antônio, o estádio Dr. Adhemar de Barros contou com um bom público – tanto a plateia araraquarense, torcedores da Ferroviária, quanto a torcida rubro-negra itapolitana marcaram presença.

Às 15h25 de 12 de abril de 1969, a partida teve início em Araraquara, com o Vasco da Gama dando a saída de bola. O Oeste, embalado por cinco vitórias consecutivas (sendo uma delas por W.O. do Fernandópolis), se atirou ao ataque nos primeiros minutos, pressionando o Vasco – que claramente priorizava se defender. Durante toda a primeira etapa, o Dragão sofreu com os ataques do Oeste – que muitas vezes parava em mais um dia inspirado do goleiro Zé Aparecido -, mas aos 42 minutos, em uma das poucas tentativas cruzmaltinas, Claudio Becatti recebeu um passe e encobriu o goleiro Botia: 1 a 0 para o Vasco.

O segundo tempo não mudou de panorama e a agremiação de Itápolis seguiu pressionando o cruzmaltino. Aos 3 minutos, Germano aproveitou uma falha da defesa do Vasco e empatou: 1 a 1. Aos 11 minutos, uma jogada que acabou sendo decisiva posteriormente: Roque, zagueiro do Oeste, foi expulso por chutar o atacante Martins sem bola.

Entretanto, de início, o fato de estar com um jogador a mais não fez diferença para o Vasco da Gama, pois aos 18 minutos, Marinho, em cobrança de falta, virou para o Oeste. O empate vascaíno saiu aos 29 minutos com Martins, de cabeça, após cruzamento de Demerval. Mas para desespero dos torcedores de Americana, Ferreirinha, aos 33, fez o 3º gol do Oeste de Itápolis.

O prélio foi se arrastando até o final e de forma trágica para o Vasco da Gama, com o desespero tomando conta dos jogadores e dos torcedores. Porém, aos 43 minutos, Demerval empatou de cabeça após cruzamento de Bauer. Foi o alívio dos torcedores vascaínos que fizeram “explodir” o estádio Dr. Adhemar de Barros.

Com o término do tempo regulamentar e o empate por 3 a 3, o jogo foi para a prorrogação. Após mais 30 minutos de prélio, no qual o Oeste buscou incessante o gol, o placar se manteve e com isso o Vasquinho se sagrou campeão da Série “Brigadeiro Faria Lima”, carimbando a sua vaga para a grande final do Campeonato Paulista da Segunda Divisão.

Na volta para Americana, muito “buzinaço” e festa dos torcedores vascaínos. Os atletas também foram recepcionados no início da Avenida da Saudade e seguiram até a Igreja Matriz de Santo Antônio com muitos fogos e cantos da torcida.

 

Campeonato Paulista da Segunda Divisão (3ª Estadual) – 2ª fase – JOGO DESEMPATE

Prorrogação: Vasco da Gama 0x0 Oeste

Placar final: Vasco da Gama 3×3 Oeste

Placar do 1º tempo: Vasco da Gama 1×0 Oeste

Local: Adhemar de Barros, em Araraquara

Árbitro: Carlos Afonso Lopes

Assistentes: Rubens Paulis e Estanislau Guerat

Renda: NCr$2.158,00

 

Vasco da Gama: Zé Aparecido; Zulu (Irineu), Arlindo (Romualdo), Valdecir e Helio; Miltinho e Tuti; Bauer, Demerval, Martins e Claudio Becatti. Técnico: Lucídio Camargo.

Oeste de Itápolis: Botia; Tatau, Roque, Lelo e Cícero; Moacir Guaçu, Ferreirinha e Dirceu (Sílvio); Marinho, Quincas (Mané) e Germano.

 

A GRANDE FINAL EM BAURU

Com o título da Série Brigadeiro Faria Lima em mãos, o Vasco da Gama partiu para o último ato contra o campeão da Série Abreu Sodré, o Municipal de Paraguaçu Paulista. Esta final geral do Campeonato Paulista da Segunda Divisão de 1968 aconteceu no estádio Alfredo de Castilho, em Bauru, pois era o “meio do caminho” para os dois municípios. A “Cidade Sem Limites”, atualmente, fica aproximadamente a 230 quilômetros de Americana – o que, com os ônibus da época, dava uma viagem de cerca de 3h30.

Durante toda a semana a Princesa Tecelã se encheu de expectativa para a grande decisão. O título da Série já tinha causado grande furor nas principais praças da cidade, mas a ansiedade para o”ato final” tomou conta dos torcedores vascaínos.

Uma grande caravana foi realizada pela diretoria do Vasco com a ajuda do diretor do Rio Branco Esporte Clube e político de Americana, Décio Vitta. Ao todo, foram 11 ônibus fretados para a torcida cruzmaltina, todos da Viação Piracicabana, e que partiram da Igreja Matriz de Santo Antônio às 8h30 do dia do jogo +. As reservas de lugares podiam ser feitas nas mesmas fontes da viagem para Araraquara: na residência do presidente Antônio Zutin, no Bar do Piracicabano, na Citra, no Armazém São João, na têxtil Meneghel, na Rádio Clube de Americana e, claro, no próprio estádio Victório Scuro.

Um dos fatos curiosos é que dois clubes prestigiaram o Vasco da Gama nesta grande decisão: o Rio Branco, publicamente em nota divulgada no Jornal O Liberal de 17 de abril de 1969 e por meio do diretor Décio Vitta +; e o histórico rival do futebol americanense União Barbarense, com o apoio do presidente Casemiro Alves, o “Pinguim”.

A delegação vascaína, chefiada por David Tunussi, chegou a Bauru no dia 19, a 24 horas da grande decisão +. Já a torcida vascaína com os 11 ônibus lotados e mais vários carros particulares partiram na hora combinada no dia do jogo. Com isso, de 800 a 1.000 torcedores do Vasco da Gama estiveram no estádio Alfredo de Castilho a fim de acompanharem a grande decisão – inclusive, os relatos dos jornais colocam que a torcida do cruzmaltino foi maioria no estádio.

Entretanto, o que era festa e expectativa, acabou virando apreensão e dificuldades. A começar pelo pré-jogo com duas decisões polêmicas do técnico Lucídio Camargo.

 

ROMUALDO: A ARMA SECRETA

O Vasco da Gama estava em uma grande fase, pois tinha encontrado, com o técnico Lucídio Camargo, o seu onze titular. Antes da final, o treinador repetiu cinco vezes a escalação. Se considerado apenas o sistema defensivo (que era formado, originalmente, por Zulu, Arlindo, Valdecir e Hélio), o cruzmaltino não tinha mudanças desde o 2 a 1 sobre o Fernandópolis, em 15 de dezembro de 1968 – na ocasião, Irineu jogou no lugar de Zulu. Ou seja, qualquer alteração na equipe titular seria vista como um ultraje ou uma invenção desnecessária de Lucídio.

Entretanto, o treinador segurou, sem que ninguém suspeitasse, uma substituição na equipe titular: Arlindo por Romualdo. Uma arma secreta. A origem desta arma secreta, porém, é curiosa: o técnico vascaíno recebeu uma dica do árbitro Carlos Afonso Lopes, no 3 a 3 em Araraquara: o Municipal tinha um ponta muito rápido – Dirceu Casagrande – e por isso deveria escalar um zagueiro mais clássico e veloz, como Romualdo, ao invés de Arlindo que era mais “bruto”. Lucídio Camargo acatou o conselho do juiz e fez a mudança no vestiário do estádio Alfredo de Castilho – o que fez os jogadores “olharem torto” para a situação.

 

DEMERVAL: A REFERÊNCIA

Outra história que antecedeu os 90 minutos de jogo em Bauru foi uma conversa do técnico Lucídio tanto com o elenco vascaíno, quanto com o atleta Demerval. A ordem era: “Demerval é a referência deste time”. Nos momentos de dificuldade, os zagueiros e os laterais rebatiam a bola ou faziam a ligação direta buscando o atacante Demerval. Ele também assumiu como capitão da equipe e tinha a missão de deixar todos “acordados” durante os 90 minutos. A sua influência moral dentro de campo foi bastante considerada por Lucídio Camargo para tomar esta decisão – que foi prontamente acatada pelo elenco, apesar da estranheza.

 

VASCO É CAMPEÃO!

Com as mudanças realizadas e com o pontapé inicial acontecendo às 15h30, Vasco da Gama e Municipal disputavam o título do Campeonato Paulista da Segunda Divisão.

Nos primeiros 15 minutos, o cruzmaltino passou um grande aperto e foi várias vezes ameaçado pelo onze paraguaçuense – o goleiro Zé Aparecido fez muitos “milagres”, salvando o Vasco de um resultado adverso já nas primeiras voltas do relógio. Os jornais de Americana, inclusive, destacaram que o arqueiro salvou a vida do Dragão no jogo.

O Vasquinho só ganhou tranquilidade após o seu primeiro gol: Claudio Becatti sofreu falta após um grande contra-ataque, e Tuti bateu forte, sem chances para o goleiro Martinho, colocando o primeiro tento vascaíno no placar. Vale destacar que este foi o primeiro chute a gol do cruzmaltino no jogo, além de ter sido a primeira “pontada” do onze americanense.

No segundo tempo, o Vasco retornou muito melhor e em um contra-ataque puxado por Tuti, o atacante Martins foi lançado, encobriu o goleiro Martinho e ampliou o placar para 2 a 0. Com isso, restou ao Dragão administrar o resultado e fechar o triunfo sobre o Municipal de Paraguaçu Paulista.

 

Campeonato Paulista da Segunda Divisão (3ª Estadual) – Final

Placar final: Vasco da Gama 2×0 Municipal

Placar do 1º tempo: Vasco da Gama 1×0 Municipal

Local: Alfredo de Castilho, em Bauru

Árbitro: Antônio Carlos Gomes

Assistentes: Ivan Coelho e Idevildes Soares

Renda: NCr$3.416,00

 

Vasco da Gama: Zé Aparecido; Zulu, Romualdo, Valdecir e Helio; Miltinho e Tuti; Bauer (Arlindo), Demerval, Martins e Claudio Becatti. Técnico: Lucídio Camargo.

Municipal: Martinho; Bira, Edgard, Claudinho e Cardoso; Walter e Zezinho; Sérgio, Mendonça, Marçon e Dirceu Casagrande.

 

A FESTA EM AMERICANA E O JOGO DAS FAIXAS

Após a vitória e a confirmação do título em Bauru, a volta foi bastante festiva entre os jogadores e os torcedores – com muito “buzinaço”, é claro. No meio do caminho, os atletas e os torcedores pararam em um posto e lá comemoraram mais um pouco. A Equipe Jovem da Rádio Clube, com os repórteres Antônio Edson e Jota Júnior, ficou responsável por convocar a massa vascaína para receber os atletas na entrada de Americana.

Ao chegar na Princesa Tecelã, a delegação do Vasco seguiu de carro de bombeiros à Igreja Matriz de Santo Antônio com muito barulho e alegria. Lá, a festa se aglomerou na praça Comendador Müller e depois prosseguiu no Bar/Pizzaria do Piracicabano, adentrando a madrugada.

A comemoração continuou no dia 27 de abril de 1969, quando o Vasquinho recebeu, no estádio Victório Scuro, o esquadrão do XV de Piracicaba para o jogo da entrega das faixas +. O time zebrado piracicabano venceu por 1 a 0, após uma longa cerimônia pré-jogo, na qual os atletas receberam as faixas de campeões – além, é claro, de todo o carinho da torcida.

 

UM ATAQUE ARTILHEIRO E A FORÇA DO VICTÓRIO SCURO

Ao longo de toda a campanha no Campeonato Paulista da Segunda Divisão de 1968, o Vasco da Gama fez 26 jogos, sendo 16 vitórias, dois empates e oito derrotas. Um aproveitamento de 65,4%. Porém, o destaque está no ataque: ao todo, foram 65 tentos anotados, uma média de 2,5 por jogo. A defesa sofreu apenas 36 gols, ou seja, média de 1,3 por cotejo. Portanto, pode-se concluir que o Vasco vencia quase todos os seus compromissos por 3 a 1.

O Victório Scuro foi a grande fortaleza do cruzmaltino nesta campanha: em 12 jogos foram 12 vitórias vascaínas. Um aproveitamento absoluto. Também, o Vasco anotou 43 gols em sua casa – média de 3,6; e sofreu apenas sete tentos. Pode-se dizer, então, que o Dragão, em sua casa, venceu todos os seus prélios por 4 a 1 ou 3 a 0 (placares que são considerados goleadas).

Todas estas 12 vitórias do Vasco no Victório Scuro fazem parte de uma impressionante sequência cruzmaltina. Contando-se apenas jogos pelo Campeonato Paulista, o Dragão embalou 27 partidas (24 vitórias e 3 empates) de invencibilidade em casa, sendo 22 triunfos consecutivos. O “tabu dos adversários” foi cair em 6 de julho de 1969, na derrota por 2 a 1 para o São Carlos Clube, válido pela “Primeirona” (a 2ª estadual) – antes disso, o último revés tinha sido em 5 de junho de 1966 para o Pirassununguense por 1 a 0, ainda pela Terceira Divisão (a 4ª estadual).

 

Elenco do Vasco da Gama na 2ª fase - Série Brigadeiro Faria Lima

Em pé: Fred Smania, Romualdo, Arlindo, Valdecir, Helio, Miltinho, Zulu, Zé Aparecido, Antônio Zutin (presidente) e Lucídio Camargo (técnico)
Agachados: David Tunussi (diretor), Bauer, Claudio Becatti, Demerval, Tuti, Martins e Irineu
O mascotinho é Edílson Tunussi, o "Bolão"
Uma das fotos do jogo de entrega das faixas de campeão da Segunda Divisão ao Vasco da Gama
Em primeiro plano, a equipe do XV de Piracicaba

Vasco 0x1 XV de Piracicaba
27/04/1969
Agora, na mesma fila, mas com o foco sendo a equipe do Vasco da Gama
Jogo da entrega das faixas - Vasco 0x1 XV de Piracicaba
27/04/1969
O elenco vascaíno devidamente premiado com as faixas de campeões
Vasco 0x1 XV de Piracicaba
27/04/1969

Em pé: Mulher desconhecida, Nenê, Romualdo, Valdecir, Miltinho, Zulu, Helio, Zé Aparecido e Lucídio Camargo (técnico)
Agachados: David Tunussi (diretor), Bauer, Claudio Becatti, Demerval, Tuti, Martins e Quebra (massagista)
Os mascotinhos não foram identificados
Nene Mobilon, Arlindo e Fred Smania - Integrantes do elenco campeão da Segunda Divisão de 1968
Jogo de entrega das faixas: Vasco 0x1 XV de Piracicaba
27/04/1969
Esta é uma cortesia do jogador Moacir Guaçu. Este é o time do Oeste de Itápolis que disputou a final da Série Brigadeiro Faria Lima contra o Vasco da Gama.

Em pé: Alicate, Botia, Moacir Guaçu, Roque, Melo, Silvinho e Servílio (massagista)
Agachados: Cassiano, Quincas, Mané, Dirceu e Germano

 

 

PRÓXIMO CAPÍTULO

CAPÍTULO ANTERIOR



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


error: Content is protected !!